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EDUCAÇÃO EM PAUTA - ÉTICA NOS ESPORTES

Não há dúvida de que o esporte é um elemento essencial para o desenvolvimento integral do ser humano. Trata-se de uma linguagem universal, capaz de transmitir habilidades físicas e sociais, valores, conhecimentos, atitudes e normas.

Entretanto, há que se fazer uma reflexão sobre a abordagem pedagógica dessa atividade. Em Sobre a presença do esporte na escola: paradoxos e ambiguidades (BASSANI, J. J.; TORRI, D.; VAZ, A. F. Movimentos: Porto Alegre, 2003.), os autores levantam importante discussão acerca do objetivo das práticas esportivas realizadas pelos estudantes dentro do ambiente escolar.

Segundo eles, dentro da lógica de reprodução industrial e sistêmica que caracteriza a educação das disciplinas cognitivas, também a Educação Física sofre com modelos anacrônicos de realização.

Prova disso é que, na maior parte das vezes, reproduz-se, na escola, apenas o esporte de competição, que valoriza práticas de alto rendimento e perfeição técnica. Segundo outro autor do tema, Blázquez Sanches (La iniciación deportiva y el deporte escolar), nesse caso, trata-se o jovem como ‘’adulto miniatura’’. Diz ainda o especialista: “Ao reproduzir competições de alto rendimento, reproduzem-se também seus vícios (como a busca feroz pelo primeiro lugar, a ansiedade pela vitória a qualquer preço, a rígida reprodução de regras e técnicas, que limita a liberdade e a criatividade)”.

Longe de demonizar a competição, o que a literatura sobre o tema tem afirmado é que a limitação a essa prática não permite o desenvolvimento de todo o potencial que o esporte pode oferecer.

A prática esportiva é uma grande ferramenta na humanização e deve ser inserida na integração dos instrumentos educacionais colocados à disposição da sociedade. Valores, como disciplina, respeito, dedicação, aceitação social, trabalho em grupo, organização pessoal, ética, obediência e estilo de vida saudável, podem ser amplamente reforçados por meio do esporte.

Segundo Souza Junior (Metodologia do Ensino de Educação Física), é preciso resgatar os valores que privilegiem o coletivo sobre o individual, resguardar o compromisso da solidariedade e respeito humano, a compreensão de que o jogo se faz “a dois”, e de que é diferente jogar “com” o companheiro e jogar “contra” o adversário, constituindo o esporte como um espaço para novos experimentos motores e para o exercício da inclusão e da criatividade.

A técnica pode ser abordada na perspectiva da resolução de problemas colocados para os alunos, incentivando a descoberta de metas, objetivos e a pesquisa, no sentido de buscar a melhor maneira de fazer algo.

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Vicente Molina Neto acredita que o desenvolvimento do esporte na escola como conteúdo da Educação Física escolar só faz sentido quando está integrado ao projeto pedagógico da instituição de ensino.

Nossas escolas estão entrando em um momento em que a convivência ética e todas as suas implicações estão no cerne das transformações educacionais que pretendemos fazer.

Em vez de um esporte “na” escola, estamos no caminho de transformá-lo em instrumento pedagógico, em esporte “da” escola.

 

Filipe Couto
Diretor Pedagógico da Somos Educação.